Análise Teológica de Batman V Superman

A nova aventura da DC Comics, continuação de “Homem de Aço”, retrata Superman como um personagem temido e questionado, diante da qual as pessoas reagem com amor e ódio, após a batalha em Metrópolis, ocorrida 18 meses antes. Batman opera sob a cobertura da noite, com o assentimento da polícia de Gotham City, enquanto o público parece aprovar sua existência. Esta é uma inversão da premissa das histórias da DC, onde Superman geralmente opera junto com o Estado, enquanto Batman age constantemente nas sombras, muitas vezes sendo perseguido pelo governo, como em “Batman: o Cavaleiro das Trevas”. Em “Batman v Superman”, Batman já está lutando contra o crime por 20 anos, e é retratado como um Cavaleiro das Trevas cansado da longa guerra travada na noite, e ainda atormentado pela morte dos pais, retratada em “Batman Begins”, e reprisada neste.
O roteiro inclui uma série de dilemas filosóficos e teológicos, mas os debates políticos, ainda que complexos, não são tão desenvolvidos como no excepcional “Batman: o Cavaleiro das Trevas ressurge”.
No nível político, são mencionados sem grande desenvolvimento: o terrorismo; a repercussão dos super-heróis nas várias esferas da sociedade, como entretenimento, política e religião; a manipulação das informações, que pode colocar em lados opostos aqueles que podem ser aliados; o ‘Ground Zero’ em homenagem aos mortos na batalha de Metrópolis; os limites do Estado, na medida em que há aqueles que consideram extremamente perigoso que um ser como Superman aja sem qualquer tipo de controle, que deve ser exercido, no caso, pelo governo; a interferência que grandes corporações podem exercer sobre o governo e agências de inteligência e segurança nacional.
No campo teológico, as imagens messiânicas são dominantes. Superman é apresentado como um tipo de Cristo, um salvador, que tem poder para intervir e resgatar poderosamente pessoas da destruição e morte. O niilismo supõe que o homem criou Deus à sua própria imagem, mas o filme inverte esse tropo, retratando o homem criando o diabo, Doomsday, em resposta à presença de Deus. Por isso, é enfatizada a antiga teoria da expiação conhecida como “Christus Victor” – Cristo, o Vitorioso, em que o que ocorreu na cruz foi uma batalha vitoriosa contra o Diabo e o mal. Uma evocativa imagem de Superman ferido, justaposto a uma cena onde aparece no fundo uma imagem em forma de cruz, coloca o personagem em uma moldura claramente cristã. Não por acaso o filme foi lançado na sexta-feira da Paixão, o dia mais solene do calendário cristão.
A Mulher Maravilha é retratada como filha de Hipólita, a rainha das amazonas, e de Zeus, a principal divindade do panteão grego, fazendo da personagem de Diana Prince um tipo de semideusa – o que não deixa de destacar o outro alicerce que, ao lado do cristianismo, moldou a civilização ocidental: a cultura helênica.
Lex Luthor é a principal voz antiteísta em “Batman v Superman”, onde, por meio de monólogos algumas vezes desconexos, rejeita a noção de um Deus bom e todo-poderoso, dada a prevalência do mal no mundo. Luthor não deve ter lido Santo Agostinho, que desmantelou todos os argumentos por ele levantados contra Deus. O gênio criminoso quer o conflito entre Batman e Superman para ter poder – poder político enfatize-se, porque não tem poder como os super-heróis. E só no caos anárquico aqueles como Luthor podem se tornar poderosos. Superman e Batman são poderosos a seu modo, mas não querem domínio algum sobre nada ou ninguém, e o cumprimento da vocação é suficiente para ambos.
O filme parece simples para quem tem familiaridade com as referências, mas pode parecer confuso pra quem não as conhece. Há citações diretas a histórias em quadrinhos icônicas, como “O Cavaleiro das Trevas”, assim como “A morte do Super-Homem”, “Crise nas Terras Infinitas” e “Injustiça: deuses entre nós”. Além de Lois Lane, Martha Kent, Perry White e Alfred Pennyworth, outros personagens aparecem ou são citados, como Robin (Jason Todd), Anatoli Knyazev (KGBeast), Mercy Graves, Jimmy Olsen, General Zod, Steve Trevor, Flash, Cyborg, Aquaman e Darkseid.
Ainda que longo, e com alguns cortes abruptos, há cenas memoráveis, com boa dose de tensão e drama. Mas o filme é brutal, assustador, violento, implacavelmente sombrio e triste. Seria fácil para a DC copiar a fórmula da Marvel de contar as histórias de super-heróis de forma descontraída, com muitas piadas e ação (a trilogia X-Men é uma exceção). Em vez disso, seguindo a trilogia do Cavaleiro das Trevas, optou-se por uma abordagem adulta, com heróis eivados de falhas humanas, e lutas titânicas entre seres superpoderosos, com consequências devastadoras no mundo real, onde pessoas inocentes morrem e os super-heróis não conseguem salvá-las todas.

Franklin Ferreira Bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e Mestre em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil. Autor dos livros Teologia Cristã e Teologia Sistemática.