Mordomo de Terno & Servo de Trapos Velhos

Se tratando da história do Batman, a riqueza do cenário, da trama e personagens é tão grande que podemos caracterizá-la como um pequeno universo dentro do Universo DC. Tão vasto que, às vezes, passam despercebidos personagens que não tem poderes ou ficha criminal de insanidade. No entanto, se não fosse por esses personagens, o número de criminosos e loucos poderia ser ainda maior.
     Alfred Pennyworth, criado pelo mesmo “Pai” do Batman (Bob Kane) em 1943, é tido por muitos fãs (e por esse que vos fala) como o “Pai” atual do órfão Bruce Wayne. Antes de se tornar mordomo dos Wayne, Alfred nada mais foi do que um militar naval no exército inglês na Grande Guerra, e agente do serviço secreto na 2a Guerra Mundial. Sua “aposentadoria” veio com o convite de ser mordomo de uma das famílias mais antigas e fundadoras de Gotham: os Wayne. Mal sabia que com a morte de seus patrões, Thomas e Martha, o cuidado e trato do jovem Bruce, renderia tanto trabalho (se não mais) como os que já havia realizado quando mais jovem: zelar, cuidar, proteger e guardar o maior detetive do universo DC, e o maior herói sem poderes – o Cavaleiro das Trevas.

     Alfred não apenas tornou-se mordomo de Bruce Wayne, mas seu médico, parceiro investigativo (sem sair da mansão ou da batcaverna, claro. Os “Robins” da vida fazem a parceria externa), conselheiro de decisões financeiras (juntamente a Lucius Fox auxiliando Bruce na gerência da sua empresa), e figura paterna, inegavelmente, por apontar o caminho certo quando o Batman sofre certos conflitos que o levam a voltar a pensar como a criança órfã Bruce Wayne. Enfim, esse mordomo de terno é a chave inglesa do Homem-Morcego, literalmente!
    O bacana do Alfred é que sua personalidade nos ensina de forma mais clara (e interessante) um mandamento e um importante dever dado por Deus para todo ser humano: o de ser guardião do restante da criação; “E tomou o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar” (Gênesis 2.15). Em outras versões, a expressão usada é a de sermos mordomos da criação. Ou seja, temos de zelar por ela, cuidar dela, não explorá-la além do que necessitamos ou sermos causadores da sua ira (catástrofes naturais em excesso nos nossos dias são um exemplo da resposta a criação a falta de zelo de nós, mordomos). E sabemos perfeitamente que após a expulsão de Adão e Eva no Éden, a missão não se alterou, mas se complicou: “Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” (Gênesis 3.17b-19). O que tiramos dessa passagem? Nossa missão ainda é de sermos mordomos da criação de Deus, e fazer isso, é um trabalho árduo, cansativo, sofrido. No caso do Alfred, a dificuldade deve-se as missões suicidas e o projeto quase impossível do Batman de eliminar o mal e manter a ordem em Gotham, causando medo e horror aos criminosos e agentes do caos. No nosso caso, devido ao caos e mal que habita em nós, isso mesmo, a nossa natureza pecaminosa. A partir dela, cumprir essa missão torna-se um fardo mais que um privilégio para nós, homens.
     A solução para esse dilemas (e para todos os existentes) é nos espelharmos no servo de trapos velhos: Jesus Cristo. Quando habitante da terra, dentre muitas lições, o trato com a criação é o que convido a você, leitor, e a mim, não perdermos de vista. Jesus conseguia retirar da natureza o necessário para o seu sustento e de seus discípulos e seguidores, sem causar um desequilíbrio ou promover a destruição desta. E olhando a nossa história, e tudo o que nós, homens, fizemos e ainda estamos fazendo, cabe-nos o pedir perdão a Deus por não estarmos sendo bons mordomos da sua criação.
     Espelhando nosso dever de mordomos da criação no mordomo de terno, aprendemos que sacrifícios hão de ser necessários (nosso tempo, disposição, inteligência e vigor) para que nosso protegido sobreviva até a vinda do Criador. E espelhando nossa vida no servo de trapos velhos, somos sábios a ponto de protegermos a sua criação, retirando dela o que nos é necessário, em troca de retribuirmos com diversos meios e formas de conservá-la e cuidá-la, no presente e para as futuras gerações. Thomas Wayne não vai voltar, mas se assim o fosse, teria orgulho do que Alfred fez ao seu protegido. Que assim também seja a nós, quando o Pai da criação, e nosso Pai, retornar.


Tiago Oliveira Tardin, 23 anos. É um cristão nerd, estudante de história, mora atualmente em Viçosa. Nas horas vagas, como não poderia ser diferente, gosta de ler quadrinhos da DC (especialmente do Batman).