Homem Divino x Homem Demônio

A galeria da DC comics de personagens praticantes e partícipes do sobrenatural, embora não tão popular como a dos super-heróis, é formidável! Dentre eles, destaco aqui nesse texto a persona Jason Blood / Etrigan, o Demônio.
Criado por Jack Kirby, em 1972, esse personagem tem notórias características que me fazem achá-lo interessante: o fato de ser um dos cavaleiros do Rei Arthur; de ter adquirido a imortalidade e sobrevivido vários séculos a ponto de, no presente, migrar da Inglaterra para os Estados Unidos, morando em Gotham; de possuir dentro de si um demônio que trabalhava a favor de Merlin contra Morgana (uma bruxa que deseja conquistar Camelot); e a que mais me impressiona: a de experimentar ser um herói, tanto como o místico e entendedor das artes das trevas Jason Blood, quanto como a forte e furiosa entidade Etrigan.

Mas a pergunta que não quer calar: o que um cavaleiro medieval imortal possuidor de um demônio tem para nos oferecer? A meu ver (e espero que no seu também, leitor), o personagem reflete o conflito de todo cristão (se não de todo ser humano). Afinal, temos o bem e o mal habitando em nós? Ou somente um e não outro?

Não me interprete mal, não quero fazer uma defesa ao dualismo, maniqueísmo ou até mesmo a filosofia asiática do Yin Yang, longe disso! O que pretendo é promover uma análise sobre a dupla natureza que todo homem tem: a natureza divina e a natureza pecaminosa.

Proponho chamar a primeira de Sobrenatureza, afinal, cremos que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança. E a segunda, de Subnatureza, uma vez que o pecado corrompeu nossa Sobrenatureza (corrompeu, não substituiu). E para avançarmos na nossa caminhada cristã, é necessário retroceder. Como assim? Retroceder para nossa Sobrenatureza, ocultada pela Subnatureza. E a única e genuína forma de fazermos esse esforço (de voltar às origens) é por meio do amor de Jesus Cristo, o qual temos conhecimento por meio da sua maravilhosa graça. Através de seu sacrifício na cruz, podemos (e precisamos) afastar e superar cada vez o nosso lado homem demônio e abraçar e viver a cada dia o nosso lado homem divino. Não devemos, todavia, ignorar a existência do pecado em nós. Herdamos essa natureza corrupta e a teremos até a vinda do Santo que fará de nós santos como ele (se assim fizermos nossa parte de, pela fé, crer em tudo isso e negarmos a Subnatureza buscando alimentar a Sobrenatureza).

Paulo, o Apóstolo, esclarece bastante esse debate que marca nossa vida como cristãos: a célebre confissão “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço” (Romanos 7.19). É certo que ele não tinha posse de um demônio, mas reconhecia que era um pecador, que possuía uma natureza pecaminosa, e por mais que quisesse não exercê-la, não poderia – era parte dele, assim como de nós.

Voltando a personagem, ao analisar as aparições e tramas que Jason Blood presencia e experimenta, nota-se duas virtudes que devemos ter em nós também (decerto que os defeitos não irei tratá-los daqui, por não ser o foco). Primeiramente, ele reconhece, como Paulo, que possui uma natureza maligna dentro de si. A vida dele resume-se a entender esse mundo sobrenatural (e que chamamos de espiritual) e reforçar seu conhecimento e perícia para que, no meio de um conflito ou batalha, ele não venha a se entregar na primeira oportunidade a sua natureza demoníaca.

Em segundo lugar, e o mais curioso e estranho, sabe-se que tanto ele como Etrigan são partícipes da Liga da Justiça, entre outros grupos (Liga da Justiça Sombria, Cavaleiros do Rei Arthur), além de formar alianças como conhecidos heróis (a exemplo, o Batman). Isso mostra que Jason Blood, não apenas reconhece a existência de Etrigan nele, como também esforça-se por fazer o quase impossível (quase): converter a entidade demoníaca numa ferramenta onde, atrelado ao seu conhecimento adquirido, possa então fazer jus a sua participação na luta contra as forças do mal.

Voltando para nosso entendimento como cristãos, o convite que faço a você, leitor, e a mim também é: busquemos a Deus e tenhamos intimidade com ele (os clichês que são a mais pura verdade: vida em oração e leitura e meditação da palavra, sozinhos e em comunidade, a Igreja). Assim, a cada dia vamos entender quem nós somos, e perceber mais sobre ambas as naturezas. Não só isso, mas o mais extraordinário: em Cristo, somos capazes de converter certos defeitos e falhas em meios para nos fortalecer. Jason Blood tinha o vasto conhecimento do sobrenatural e a longa experiência de vida. Nós temos algo muito melhor: Deus, que pela sua graça e amor, nos auxilia nessa guerra interior para que o nosso Etrigan não nos afaste da santidade que Ele tem guardado a cada um de nós. Ao contrário: ele o transforma num instrumento para o buscarmos com mais afinco (efeito da nossa impotência nos fazendo voltar os olhos ao Criador) e assim entregarmos tudo o que somos (ambas as naturezas a Ele) e assim sermos doutrinados conforme a sua boa, perfeita e agradável vontade. Descubra então, leitor, o seu Etrigan e entregue-o a Deus!


Tiago Oliveira Tardin, 22 anos. É um cristão nerd, estudante de história, mora atualmente em Viçosa. Nas horas vagas, como não poderia ser diferente, gosta de ler quadrinhos da DC (especialmente do Batman).