Os Teólogos do Medo da DC

Faz algumas semanas que li uma coluna de Fernando Passarelli, referindo-se a chamada teologia do medo comparando com as ações do Cavaleiro das Trevas em obter justiça e ordem através do medo. Não querendo fazer uma continuidade do trabalho do autor, pretendo fornecer dois exemplos dentro do Universo DC (não poderia ser diferente), bem como duas abordagens de atuar mediante o medo, a fim de pensarmos como lidar com essa questão.
Antes de tudo, compartilho a maneira como vou trabalhar com o conceito Teologia do Medo (e teólogos do medo): corrente de pensamento que trabalha com a premissa da existência do Diabo (que é uma verdade) capaz de agir no ser humano pela desgraça, maldade e sofrimento (com isso, o pensamento desandou do que o Cristianismo nos ensina). Dessa forma, as vítimas atingidas por esse discurso, são tomadas por um medo e pavor, reagindo de duas formas: negando o discurso e vivendo suas vidas acreditando em sorte e acaso (coisas ruins acontecem, faz parte da vida); ou o desespero de vir a cair nas mãos de Satanás, e para evitar isso, tornam-se submissas a esses teólogos, atribuindo a eles servidão e submissão que não lhes caberia. A esse segundo grupo que gostaria de analisar nesse texto.
Agora vamos aos exemplos dos quadrinhos onde encontramos esses teólogos (e o que a teologia do medo denomina por Diabo, essas personagens intitulam o Caos, o Mal, a Sociedade Corrupta e por aí vai): Thaal Sinestro (criado por John Broome), em 1961 e Jonathan Crane, o Espantalho (criado por Bill Finger, em 1941). Ambos possuem origens interessantes que nos levam até a compreender suas atitudes. Não caia nesse erro!

Sinestro era um dos melhores lanternas verdes, ajudou a treinar Hal Jordan (ainda hoje considerado o maior lanterna verde de todos), morador do planeta de Korugar. Quando seu planeta entra numa crise, ele se dispõe a se tornar o líder garantindo o desenvolvimento e prosperidade de sua casa. No entanto, a forma de governo não agradava os Guardiões de Oa (responsáveis, dentre outras coisas, pela criação dos agentes lanternas verdes). Isso porque ele havia promovido uma espécie de governo tirano para assegurar a ordem do seu planeta. Em resposta, Hal Jordan (seu melhor aluno) é enviado para destroná-lo e acabar com a tirania de Korugar. A derrota o leva a Sinestro vê-lo como principal adversário, e a dar as costas aos Lanternas Verdes, fundando uma tropa baseado na energia amarela do medo, a seu ver, mais eficaz para o controle e cuidado do universo. Qualquer semelhança com pessoas que viveram a vida na Igreja, mas por algum mal entendido, se enfurecem e viram a casaca, passando a odiá-la (não é merca coincidência).
Jonathan Crane era um jovem que não é exagero nenhum chamá-lo de nerd (o que nos Estados Unidos não era algo para se ter orgulho como temos hoje). Constantemente atormentado por colegas da escola, Crane descobre um meio de superar seu trauma (ou assim pensava): pagar na mesma moeda e assustar para valer os que o assustavam, disfarçando-se de espantalho. O complicado foi que ele sentiu prazer no que fez, e passou a abraçar seu medo como aliado para sua sobrevivência. Na faculdade, aluno e futuro psiquiatra, tinha o estudo do medo sua especialidade. Até que sua proposta de querer cobaias humanas foi rejeitada. Em resposta, ele novamente tomou do medo e, associado ao seu conhecimento, criou um composto, a Toxina do Medo, capaz de despertar no ser aquilo que mais teme. Batman impediu seu plano de se vingar dos seus patrões e em troca ganhou mais um inimigo na sua vasta galeria.
Sei que pode parecer forçação de barra, mas ambas as personagens, Sinestro e Espantalho, trabalham mediante o discurso da Teologia do Medo, a saber, assombrar as pessoas a ponto de torná-las fracas e submissas. O que os difere é o resultado que buscam: o primeiro visa a ordem e a justiça, enquanto o outro se vale do medo para manter a dimensão caótica e corrupta da sociedade. Não há relatos de que ambos acreditavam em Deus (e não carecemos dessa informação). Os efeitos que ambos causam dentro dos subúrbios de Gotham ou dos fracos planetas do universo, são o mesmo que os teólogos do medo causam a quem credita neles. E isso leitor, goste ou não, é distorcer a Palavra de Deus.
Prova de que o medo não deve ser uma ferramenta do cristão para combater o mal e promover a justiça de Deus (muito menos de se conformar com o mundo que jaz no maligno) consta na própria Bíblia: “Por isso não tema, pois estou com você;
não tenha medo, pois sou o seu Deus. Eu o fortalecerei e o ajudarei; eu o segurarei
com a minha mão direita vitoriosa
” (Isaías 41.10); “Sejam fortes e corajosos. Não tenham medo nem fiquem apavorados por causa delas, pois o Senhor, o seu Deus, vai com vocês; nunca os deixará, nunca os abandonará” (Deuteronômio 31.6); e o conhecido “No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor” (1 João 4.18). Só por meio desses três exemplos (existem vários outros), tiramos duas essenciais lições que discordam da teologia do medo: o medo não é algo que nos leva a Deus, mas nos afasta e nos faz desacreditar que Ele está no controle; e que abraçar e sentir prazer no medo implica em não abraçar e sentir prazer no amor de Deus.
Não quero aqui fazer o impossível convite de não termos medo (já que esse vos fala é medroso em escala anormal). Mas convido você, leitor, e a mim principalmente, não deixar que o medo que temos (da falha, da solidão, do mal que aparenta crescer e se multiplicar entre outros) nos afaste de Deus e da sua promessa. Promessa de que Ele ainda está no controle; de que aflições teremos, mas o mal já foi vencido, na cruz, graças a Jesus; e que crer e viver seu amor nos leva a, mesmo nos momentos em que tivermos medo, não perder a confiança nEle e nEle somente.

Atualmente, existem muitos Sinestros que tentam nos assustar para aceitarmos seus ensinamentos e liderança (políticos corruptos e líderes religiosos radicais) e muitos Espantalhos que se conformam com o caos do mundo e convencem muitos a viver nesse pessimismo e infeliz filosofia de vida (aprendizes de Nietzsche e Schopenhauer). Mas graças a Deus existem muitos servos fiéis a Deus e Jesus Cristo que desmentem esses teólogos do medo, desmascaram-nos e apresentam a genuína Teologia: Jesus Cristo, sua vida e ensinamento. Sejamos sábios ao escolherem a quem vamos emprestar nossos ouvidos e tempo.

Tiago Oliveira Tardin, 20 anos. É um cristão nerd, estudante de história, mora atualmente em Viçosa. Nas horas vagas, como não poderia ser diferente, gosta de ler quadrinhos da DC (especialmente do Batman).