Escondido na Armadura

Existem heróis que nos remetem imediatamente às virtudes humanas. O Homem-Aranha é um vetor da responsabilidade. O Capitão-América, da civilidade. O Super-homem, da entrega absoluta. O Wolverine, da determinação. O Quarteto Fantástico, da união familiar. Todos são virtuosos, sim – e portadores de alguns defeitos também. E se a trajetória cristã é a soma das imperfeições, purificadas pela graça do Criador, nenhum outro herói tem condição melhor de personificá-la do que Anthony Stark, o Homem-de-Ferro.
O personagem sempre teve grande relação com os valores cristãos. Afinal, é quase impossível não lembrar do Homem-de-Ferro diante da carta de Paulo aos Efésios, versículos 11 a 17: “Revesti-vos de toda armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo (…) Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça; e calçados os pés na preparação do evangelho da paz; tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno. Tomai também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus”.
Para o homem pós-moderno, a “armadura” tem pouca relação com as proteções dos romanos, filisteus ou hebreus, muito menos a dos cavaleiros medievais. Para a geração atual, armadura é sinônimo do Homem-de-Ferro. Dessa forma, até podemos dizer que o apóstolo Paulo escreveu seu texto tendo em mente o amarelo e o dourado, nas cores do Vingador. Quanto à espada… bem… temos as rajadas propulsoras que saem das mãos…
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Tirando o herói da armadura, ficamos com Anthony Stark e sua multidão de defeitos. O mercador da morte, fabricante de armas. Um homem ganancioso, vaidoso, mulherengo e alcoólatra. Só para citar os defeitos mais perceptíveis. As características desprezíveis desse bilionário foram abordadas nos filmes atuais, no cinema. E se você
recorrer à literatura do personagem, nas HQ’s, vai se assustar com o que encontrará.
Nas histórias em quadrinhos, Tony Stark é um descuidado com os projetos de sua armadura, permitindo que sua tecnologia seja duplicada por mercenários ao redor do mundo. Perdeu a luta contra o vício da bebida, levando sua vida à sarjeta e ficando à beira do suícídio. Foi destituído do comando da própria empresa, que chegou a ser adquirida por uma rival. Liderou uma Guerra civil contra os heróis, pregando um registro governamental da atividade meta-humana. E se o colocarmos numa disputa com outro milionário dos quadrinhos, Bruce Wayne, Tony Stark ganha de longe na quantidade de namoradas e amantes. Curioso é que Bruce Wayne se esforça para que os casos amorosos pareçam reais e encubram sua atividade como Batman. O alter-ego do Homem-de-Ferro, não. O glamour e a luxúria são a sua vida, e ele não nega isso. Pois bem, por essa e mais outras atuações na vida, o troféu de personificação do cristão vai, sim, exatamente, para Tony Stark.
Como assim?
“Eles dizem que a melhor arma é aquela que você nunca tem que usar; eu prefiro aquela que você só precisa usar uma vez”. O bilionário inventor explica assim a utilidade de seu mais novo “produto”, o míssil-repulsor “Jericó”, no primeiro filme sobre o herói.
Afinal, como você se relaciona com Deus? Para você, Ele é Deus no mais alto céu, num posto inatingível para qualquer humano, onde existe como um recurso extremo? Ou, Ele é o Senhor-amigo, parceiro, boa gente, confidente, tocável, alcançável, até abraçável? Para uns, é o Supremo Poderoso que não tem que ser “usado” nunca, implacável. Para outros, é Aquele que deve ser usado de uma só vez – e se o resultado não for o esperado, é culpa de que o buscou. Será que é Deus é assim, tão extremista? Tão preto no branco? Porque Jesus foi um pregador das ‘zonas cinzentas’, disponível para amar…
HOMEMDEFERRO1E onde entram todos os defeitos de Tony Stark? No melhor lugar onde poderiam estar, dentro da armadura, ao lado das imperfeições de caráter que nós e todos os heróis da fé colecionamos. Não poderia haver companhia melhor.
É vestindo essa armadura que podemos encobrir nossas imperfeições. Cada peça é um recurso divino, possibilitando que caminhemos nesse mundo em segurança e proteção. E assim como o herói, ao fim de cada combate podemos forjar outro modelo melhor, mais eficiente. Porque quando aprendemos a manusear bem os recursos dessa armadura cristã, podemos aprimorá-la no próximo modelo. E assim por diante.
Quando Tony Stark consegue encontrar um sentido para sua vida, a armadura se transforma em ferramenta. Deve ser assim, também com o cristão. Nosso sentido na vida – seguir os passos de Jesus – deve ter a armadura como “meio”, e não como “fim”. Tem gente que esquece que a batalha do ser humano só tem sentido em função do amor, e
que não pode existir por si só.
“Eu já deveria estar morto (…) Deve existir uma razão (para eu sobreviver) Agora, eu finalmente descobrir o que eu devo fazer”. No filme, o Homem-de-Ferro fez as descobertas dele.
Você já fez as suas?
Fernando Passarelli é paulista, tem 40 anos, é jornalista e moderador do site DeusNoGibi.com.br, onde oferece conteúdo para a educação cristã.