Faça parte da família

Quando Kevin Eastman e Peter Laird decidiram fazer uma sátira aos heróis de sucesso, no meio dos anos 1980, não economizaram nas referências. Juntaram tudo que estava na moda: as artes marciais, os seres monstruosos, os jovens rebeldes e os animais falantes. Era pra ser algo alternativo, absurdo, ‘over’ como se diria décadas mais tarde. Só para deixar bem claro o tom de piada, decidiram que os personagens levariam os nomes de famosos pintores renascentistas.
Em maio de 1984 os dois lançaram a primeira HQ das Tartarugas Ninjas (Adolescentes Mutantes). A revista trazia uma história em preto-e-branco, com uma tiragem de três mil exemplares. No roteiro, um quarteto atarracado, que se vivia nos esgotos de Nova Iorque e combatia ninjas inimigos. Lá na origem, as histórias tinham violência de sobra. Apunhaladas, cortes, pancadaria rolando solta. E mal dava para saber qual tartaruga era qual, todas usavam as mesmas máscaras vermelhas na capa.
A novidade agradou e veio o sucesso. Com ele, a promessa de uma linha de brinquedos – que só poderia ser lançada se houvesse maior identificação com o público infantil. Por isso, as Tartarugas Ninja ficaram engraçadinhas, vestiram máscaras de cores diferentes e ganharam personalidades distintas. Foi um sucesso mundial, que rendeu milhares de produtos licenciados – e de dólares – diversas temporadas de desenhos animados, uma série de TV com atores e muitas interpretações no cinema.
As explicações para esse sucesso podem ser muitas. Houve uma linha excelente de brinquedos, uma empatia com os referenciais preferidos dos meninos – brigas e monstros, e até uma identificação com os personagens. Afinal, quem não conhece uma família disfuncional?

Criados por um rato gigante – fruto de outra mutação genética – os quatro irmãos/tartarugas encaram as mesmas brigas de qualquer lar moderno. Tem o mais explosivo, impaciente, que pensa primeiro com os músculos (Rafael); o nerd, enfiado nos livros de ciência, exercendo o papel de ‘chato’ em algumas horas (Donatello); o líder, tentando organizar a bagunça e disciplinar os irmãos (Leonardo); e o palhaço, infantilóide, que perde os amigos mas não perde a piada (Michelângelo).
Só com muito treinamento oriental e concentração esse grupo consegue se dar bem nas lutas. Nessa hora, se transformam e, em qualquer campo de batalha, nem parecem os mesmos adolescentes que se estapeiam pelo último pedaço de pizza. São eficientes, precisos nos movimentos e golpes. Parece, aliás, que é só ali, nas lutas do dia-a-dia, pela sobrevivência, que as coisas funcionam como uma engrenagem lubrificada.
Como uma família de verdade…
Talvez como a sua: na rotina, é aquela falta de paz. Filho reclamando do irmão, mulher implicando com o marido. Cunhado devendo dinheiro para o sogro. Primo aprontando com tio. Uma bagunça. Falta de respeito, caras viradas, mágoas. Situações que fazem qualquer pessoa questionar se a família é, realmente, a tal célula principal da sociedade.
Quanta gente confessa, com tristeza, que só volta para casa para comer, tomar banho e dormir, porque não aguenta mais seus pais, irmãos, avós, tios. Refeições que mal chegam ao fim, tamanho o bate-boca e as acusações. Ou, ainda, com um silêncio condenatório. Se as paredes tivessem boca, quanta coisa contariam dessa ou daquela família.
Mas na hora que aparece um problema – uma doença, uma situação de risco – as maiores diferenças são colocadas de lado. Todo mundo se junta, todo mundo colabora. Lado a lado, estão de mãos dadas para superar o que vier. Até dinheiro surge nessa hora, de empréstimo ou doação. Como as Tartarugas Ninjas, são parentes que diante de um perigo real, imediato, assumem uma nova postura. Porque nessa hora, o que não tem importância ficou para trás. É momento de partir para a luta.
Isso acontece em muitas famílias, por mais complicadas que sejam. Mas você pode não concordar: “Na minha família, não. Ninguém sabe o que nós passamos.”
É verdade. Mas conhecemos uma família que talvez seja mais complicada que a sua. E ainda assim, teve um momento de glória.
Nessa árvore genealógica tem um assassino, um doente mental, um adúltero, uma prostituta, uma estelionatária, uma adolescente grávida antes do casamento… Que gente ruim, não? Difícil acreditar que foi daí que veio Jesus. Quem diria, o filho de Deus, de uma família tão problemática…
A verdade é que não escolhemos a família onde nascemos. Nem dá selecionar quem será nosso pai, mãe, irmão, irmã, tios, primos. E nessa falta de escolha, podemos nascer num lar muito bagunçado, cheio de gente que não nos agrada. E assim, corremos o risco de viver sonhando com um lar como aquele da revista de celebridades ou com ensolaradas manhãs, como a dos comerciais de margarina. Tudo muito perfeito. Tudo muito raro, difícil de acreditar.
Estamos, sim, mais para um bando de adolescentes, esquisitos, cheios de energia para briga e um pouco lentos – como tartarugas – para importantes percepções da vida. Empurramos problemas com a barriga, deixamos o perdão e a reconciliação para amanhã. Os próprios criadores da Tartarugas Ninja, Kevin Eastman e Peter Laird, passaram décadas sem se falar. Uma briga, uma divergência de rumos, fez os dois se distanciarem durante muitos anos. Imagine só. Ser parte de um importante capítulo da cultura pop mundial e não conseguir mais ficar ao lado do seu companheiro de criação, parceiro de longa data.
Por muito menos quantas palavras já não foram ditas sem se pensar, quantas portas não foram batidas.
Na história das Tartarugas Ninjas, elas pagaram um preço alto para se tornar uma família. Se não fosse a transformação trazida por uma substância experimental, seriam ainda minúsculos mascotes de laboratório. Mergulhadas naquele líquido verde elas ganharam tamanho, inteligência e uma vida de desafios. E descobriram que viver é difícil – tanto quanto, ou mais, que vencer uma luta com ninjas inimigos.
Mas a sua vida também não é fácil, concorda? Ninguém sabe seus desafios.
Ou melhor, tem um Deus que sabe. E que um dia pagou um preço alto, encarnado na figura de Jesus, para te trazer para o coração dEle. Porque se existe alguém que tem o poder de escolher a própria família, esse alguém é Deus. E Ele te escolheu para ser seu filho. Então, celebre! Faça parte dessa família e desfrute da companhia do Pai.

Fernando Passarelli é paulista, tem 40 anos, é jornalista e moderador do site DeusNoGibi.com.br, onde oferece conteúdo para a educação cristã.