Alguém defenda o Coiote

Depois do confronto entre gato e rato, não existe duelo mais conhecido no reino animal dos desenhos animados que o embate entre o Papa-léguas e o Coiote.
Um roteiro simples: Wile Coiote elabora armadilhas para agarrar o Papa-léguas e comê-lo. Mas o Papa-léguas, veloz como ele só, sempre escapa correndo. Bip Bip!!!
Esse desafio existe desde 1949 e, Tom e Jerry que não nos ouçam, é o desenho clássico de perseguição que mais arranca risadas pela criatividade dos roteiros desenvolvidos.
Perdoem-nos os fãs do Papa-léguas e inimigos da luta pela sobrevivência, mas o Coiote é um exemplo. Não pela fome, nem pela baixa capacidade intelectual que demonstra... O Coiote é um exemplo de perseverança e determinação.
No linguajar empresarial, poderíamos dizer que ele é focado, perseguidor de uma meta. Não desanima diante das adversidades que aparecem, mesmo vivendo uma sucessão de fracassos.
            Quem de nós teria coragem de encarar, manhã após manhã, uma das grandes inimigas da humanidade: a lei da gravidade? Somente foguetes e aeronaves conseguem domá-la, mas o Coiote não pensa pequeno! Se o Papa-léguas ultrapassa um abismo em alta velocidade, o Coiote veste asas e tenta ir atrás. Nem que tenha que desabar por um desfiladeiro novo a cada dia, ele continua tentando...
Digamos até que, se os teólogos o conhecessem bem, certamente incluiriam o testemunho no Coiote na próxima edição dos livros de liderança cristã...
Podemos imaginar o depoimento dele, lembrando que “sempre foi mais humilhado que ferido, por suas derrotas, porém foi isso que aumentou sua determinação por toda a vida”. Ou então, recordando o dinheiro que juntou em sua vida para comprar os produtos ACME, em busca de sua meta: “Se você tem algum recurso financeiro, aplique na busca da sua meta. Pode ser um rolo-compressor gigante, para esmagar o problema, ou mesmo uma corda muito fina para derrubá-lo. Também não interessa se é preciso se vestir de super-herói para voar ou colocar um vestido para seduzir sua presa. Simplesmente faça-o.”
O Coiote é dedicado no que faz.
Quando tem uma idéia fantástica e não possui o conhecimento suficiente para executá-la, tem humildade para recorrer aos livros e apreender o caminho. É assim que constrói foguetes velozes, pontes móveis, armadilhas precisas e androides assassinos.
Dá orgulho ver esse bicho. Aliás, mais orgulho do que pena ao observá-lo se arrebentar no fim do precipício. Podemos até tentar uma elevada observação tupiniquim: o Coiote só pode ser brasileiro, porque não desiste nunca!
E o Coiote pode ser também exemplo aos cristãos.
Paulo escreve aos Romanos, no capítulo 5, versos de 3 a 5: "Gloriemo-nos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a perseverança, e a perseverança a experiência, e a experiência a esperança, e a esperança não desaponta, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado."
O Coiote enfrenta as tribulações. Aplica todos os seus recursos e esforços para vencê-las. Se não tem sabedoria, busca. E nos ensina a não desanimarmos diante das falhas, transformando-as em perseverança. Com a alma cheia dessa força de vontade, sabemos que virá a experiência - e quem tem mais experiência (em perseguir o Papa-léguas) que o Coiote?
Será que temos tanta vontade assim, também, em perseguir sonhos, em perseguir o amor de uma família e amigos, em perseguir a santificação de vida?
Lembro que recebi uma mensagem de uma amiga que se dizia cansada das derrotas sofridas. E falava que se enfrentasse mais uma decepção, queria ir morar com o Coiote.
Depois de pensar no assunto a aconselhei que o fizesse. Não haveria escola mais poderosa em revigorar suas forças e ensinar a perseverar pelas metas de vida.
Houve um executivo que aprendeu muito com um monge, ao viver um período ao seu lado, e escreveu um livro sobre isso. Como não dá para achar um monge em cada esquina, fique com o Coiote e suas lições valiosas.

Fernando Passarelli é paulista, tem 40 anos, é jornalista e moderador do site DeusNoGibi.com.br, onde oferece conteúdo para a educação cristã.